Dream News (DN) – Pode descrever a paixão que nutre pelos animais?
Rute Porém (RP) – Os animais sempre me fascinaram. E tudo começou pelo gato que os meus pais levaram para casa, quando eu tinha cinco anos. Sou uma pessoa introvertida e os animais, com quem tive o privilégio de partilhar a minha vida, sempre foram uma companhia muito presente. Durante os meus anos de escola, havia sempre uma das minhas gatas que me apoiava, durante os estudos, deitada ao lado e às vezes em cima, dos meus apontamentos. O meu pai até me dizia a brincar, que um dia destes a gata iria saber mais do que eu.
DN – Como e quando descobriu que gostaria de ser veterinária?
RP – Quando era miúda, tinha uma grande curiosidade e dizia que queria ser cientista para estudar todos os animais. Claro, que à medida que cresci, descobri que seria uma tarefa desmedida. Como tal, quando cheguei ao final do 12.º ano, apenas me candidatei a Medicina Veterinária e a Biologia, porque eram realmente as áreas que eu gostava e me via a trabalhar.

DN – Que memórias guarda dos tempos em que andava na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa?
RP – Foram tempos de muitos desafios, visto que não temos apenas toda a carga teórica, mas também toda a parte prática que pode ser muito desafiante em termos físicos e mentais. Esse é um aspeto que é muitas vezes esquecido. Como profissionais lidamos com o sofrimento dos animais, mas também com o sofrimento dos seus tutores, para os quais muitas vezes aquele animal é a sua única companhia. Somos a única área profissional que consegue estar presente no nascimento e no falecimento do seu paciente, acompanhando todo o seu percurso de vida.
DN – Para si, o que representa ser veterinária?
RP – Para mim representa o cuidar, o ajudar e o conhecer seres cuja capacidade de nos amar (aos tutores) e nos apoiar, com a sua presença silenciosa, nunca me cansa de surpreender. Na minha casa tenho quatro gatos, o que faz com que tenha sempre companhia. Como é agora o caso em que o meu Tobias, está sentado ao lado do meu computador. Chegaram-me a dizer, quando iniciei os meus estudos, de que os animais não falam, e como tal não se podem queixar sobre o que lhes aflige. No entanto, existem muitos sinais do ponto de vista clínico que nos permitem interpretar a sua condição física e qualquer tutor atento, também consegue descortinar o estado emocional do seu animal. Por isso eles comunicam imenso, basta estarmos atentos.
DN – Atualmente, é terapeuta ligada à Medicina Veterinária Integrativa e Funcional… Como funcionam as duas áreas e quais são os grandes objetivos das mesmas?
RP – Medicina Integrativa e funcional pressupõe olhar para um animal e avaliá-lo como um todo. Percebi ao longo da minha prática que apesar da preparação que me foi conferida na Faculdade ter sido excelente, que tinha de ir mais além. Eu quis adicionar aos ensinamentos que já tinha a possibilidade de incorporar a Aromaterapia e as massagens terapêuticas e assim obter resultados mais rápidos, utilizando técnicas não evasivas.

DN – Quais são os grandes benefícios que podem ser retirados para os animais?
RP – Vamos ter melhoria das funções motoras, da capacidade cognitiva, menor tempo de uso da medicação convencional, mas principalmente existe uma melhoria na qualidade e um aumento do tempo de vida do animal.
DN – Como se pode definir a Aromaterapia e quais são os seus benefícios?
RP – A Aromaterapia é uma terapia em que se usam as propriedades terapêuticas dos óleos essenciais produzidos pelas plantas, em todos os seus órgãos vegetais, desde a raiz até à flor. Estes compostos são considerados a primeira linha de defesa das plantas. Cada planta produz um óleo específico, podendo este ser constituído por até 200 componentes químicos diferentes. É esta diversidade de componentes que permite a cada tipo de óleo essencial atuar em quadros clínicos muito diversos. Os óleos essenciais são constituídos por moléculas muito pequenas, que conseguem facilmente penetrar na pele, nas mucosas e nas células. A melhor forma de aplicar nos animais é por via aromática, podendo estes serem difundidos utilizando um difusor, existindo no mercado vários modelos. A outra opção de aplicação é por via tópica, sendo necessário proceder à sua correta diluição, que varia consoante a espécie que se está a tratar. Os animais possuem um sentido do olfato muito mais desenvolvido do que nosso, sendo de extrema importância fazer a diluição adequada, tendo o cuidado de nunca apresentar um óleo essencial puro. Em relação aos seus benefícios, e como cada planta produz o seu óleo essencial específico, quando olhamos para os seus componentes, podemos ter compostos com propriedades, tais como, antibacterianas, antivirais, antifúngicas, anti-inflamatórias, antissépticas ou antiparasitárias. Estes são apenas alguns exemplos já que existem muito mais propriedades.
DN – Como se podem obter os produtos para Aromaterapia?
RP – Eu trabalho apenas com os produtos da marca DoTerra, que devido aos testes efetuados em cada lote, me dá segurança na sua utilização. Estes produtos podem ser obtidos através de venda direta.
DN – Também se dedica à massagem terapêutica… Como podem ser realizadas nos animais e quais são os benefícios que podem ser obtidos?
RP – Na massagem terapêutica, todo o animal é trabalhado. Caso haja uma lesão no membro anterior direito, ou seja, no braço direito, por exemplo, deve-se fortalecer os outros membros que se encontram em sobrecarga, e só depois trabalhar-se o membro afetado. A massagem terapêutica é recomendada no caso dos animais geriátricos, obesos, na recuperação pós-cirúrgica, pacientes ortopédicos ou neurológicos, animais de trabalho ou desporto, e em animais com distúrbios comportamentais. Em termos de benefícios temos que promove o relaxamento, diminui o tempo de recuperação, melhora a função e a qualidade do movimento, reduz o edema e a dor, aumenta a esperança de vida e é uma técnica não evasiva. Existem movimentos muito fáceis, que o tutor pode fazer em casa, e que são ensinados na sessão, e que podem levar a grandes melhorias, quando implementados. Visto a concentração de um animal ser muito reduzida, precisamos de repetir a sessão durante o dia. Normalmente, os animais preferem que seja o tutor a tocar-lhes em vez de alguém estranho. Um dos grandes benefícios, quando os tutores cumprem o protocolo, é que existe sempre um estreitar de laços entre o animal e o seu humano.

DN – De forma geral, trabalha com todos os animais ou com alguns em particular?
RP – Em termos de massagem terapêutica é essencialmente com cães, e em casos muito específicos também pode ser com gatos. A abordagem aos gatos deve ser realizada num ambiente ainda mais calmo do que no caso dos cães. No caso da Aromaterapia, aí já abordo animais de outras espécies, incluindo os de grande porte, como é o caso dos cavalos.
DN – Para além de ter a missão de cuidar e ajudar os animais, também se foca na área do Shiatsu para ajudar os respetivos tutores… Que tipo de trabalho realiza nesta área e quais são os benefícios que podem ser obtidos?
RP – Fiz a formação de primeiro nível do Shiatsu, que é uma terapia de origem japonesa, em que são trabalhados os pontos do corpo do paciente através de pressão exercida pelos dedos do terapeuta, de modo a desbloquear pontos aonde a energia esteja acumulada. Pode ter várias aplicações, sendo que para o meu trabalho, gosto especialmente da valência de promover o relaxamento do tutor, mas, tem muitas mais indicações. O meu objetivo é poder trabalhar sobre toda a família multi espécie, para assim poder promover o bem-estar do animal e dos seus humanos.
O meu objetivo é poder trabalhar sobre toda a família multi espécie, para assim poder promover o bem-estar do animal e dos seus humanos.
Rute Porém
DN – Os animais têm a percepção do que os donos sentem?
RP – Os animais têm perceção sobre os nossos estados emocionais e podem ser afetados por eles. Quantos de nós já não presenciamos o caso de uma pessoa estar a chorar, o seu animal estar junto a ela, a tentar muitas vezes lhe fazer festas. Para contrariar isto, o tutor ao chegar a casa, deve colocar um óleo essencial calmante no difusor e sentar-se no chão a fazer festas ao seu animal. Este abrandar irá fazer maravilhas para contrariar o stress acumulado.
DN – Sente-se feliz por ser uma veterinária diferenciadora? O que gostava de concretizar no mundo da Medicina Veterinária?
RP – Tem sido um caminho desafiante que resolvi fazer, apesar de todas as dúvidas. No entanto, tem sido extremamente gratificante o feedback dado pelos tutores, mas, mais ainda pelos seus animais. Estar a fazer uma sessão de massagem e, no final, ser premiada com uma lambidela, não tem preço!
